homem d gris

Thursday, August 31, 2006

sorte na vida

a história de um homem comum:

em 1956, mês quarto, décimo primeiro dia, nasce joaquim oliveira. garoto saudável, pesado, homem de futuro. nos primeiros anos de vida, brincou; também deixou de brincar – exigência do pai, severo. seguiu. os primeiros passos; as primeiras palavras; travessuras... releva-se – o homem cresce. no básico, destaca-se – mas sem muito destaque, porque, nesse período, tudo é muito passageiro, as pessoas não notam. do ensino médio temos algumas lembranças: uma boa dúzia de raparigas; medalhas no futebol; um primeiro lugar na feira de ciências – vulcão em erupção, ordinário e eficaz. vem a faculdade, com aprovação no segundo vestibular, excelente – no período, mas duas dúzias, ou três, de interessadas. mas é difícil viver como arquiteto... distrito federal, melhor pleitear uma vaga no serviço público... como? estudando. r$ 1.200 o primeiro cursinho, à vista. joaquim amarga o 1149º lugar – 38 vagas para o cargo pretendido. a vida segue, mas não dura, disseram. parte para o segundo turno: terceiro colocado, satisfatório, acredita. segue. estabilidade, tranqüilidade, fraternidade... sorte na vida. joaquim não estava muito certo, mas, vez ou outra, descansado no conforto de uma poltrona, a um canto da sala de estar, encontra-se satisfeito. o escritório de obras, que abrira com a ajuda o pai, prosperava... tempo de agir, seguir. uma esposa, uma companheira, não trouxe algo que não alegria... e um ou outro aborrecimento, mínimo, em discussões sobre o cotidiano e a vida... no mais, prazer. seqüente e conseqüentemente, vieram os filhos. lindos, mínimos, saudáveis. esses crescem, assim como o patrimônio de dr. oliveira. em família, seguem, felizes, diria. 2004, 2005, 2006... dr. oliveira e seus filhos, criados, assistem ao noticiário no fim do dia... apoiado no ombro da filha, a dilatação anormal de uma artéria cerebral leva-a ruptura, sem vômito, rigidez na nuca ou convulsão. é quando morre joaquim oliveira, próspero, pai de dois filhos.

Monday, August 28, 2006

tutor

“let me ask you a question. do you think you are who you are or you can change it, like, control your life? forget it. as soon as you say it, you realize it’s fucking stupid.”


eu a conheci
fria, cínica, desonesta...
e encantei-me
com sua atuação.

não tenho de ter, penso.
admito, conheço
a mais fértil, penso...
e vou-me,
frio, cínico, desonesto
a refletir, irrefletidamente,
o mesmo ordinário desempenho.

infeliz, sua idéia, mente.
curiosamente!
torno a me encantar,
surpreendido,
no mesmo previsível viver.

Wednesday, August 23, 2006

balanço

reservei um dia para refletir. condensar, na verdade, o que foi processado no último módulo.

sou hoje alguém além do que era, logo que concebido? é certo que não. verdade, conheci bandas; testemunhei cenas; descobri gêneros; aprendi a focar, verdade. mas, que importância tem isso? aprendi, além, ainda que com alguma deficiência, a somar, subtrair, multiplicar, e mesmo dividir. mas já não realizava essas operações quando ainda um feto? relevante, creio, sei que cresci, mas não a ponto de me fazer notar. ganhei peso, pêlos, cicatrizes... reconhecido, agora, como animal político, sei que nada sei – nenhum paralelo com o filósofo.

prossigo... o não conhecimento, a certeza da incerteza garante uma fundamental informação, que não possuía quando garoto: se não conheço a mim mesmo, o meio em que vivo, não conheço também você. não hei de conhecer, não importa quantas cartas escreva, quantas flores ofereça, quantas homenagens preste.

no entanto, quero dizer quem sou. você não entenderá! quero também ouvir de ti, sem me importar com o fato de que você permanecerá um mistério. apenas ouvir... e falar, gostaria. mas a oportunidade passou! e o dia de amanhã é tão certo como toda essa incerteza; tão evidente como a própria vida, de início, entretanto e finalmente.
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sou grato, porque morro com o peito livre de mágoa ou rancor. sentia-me diminuído, mesmo traído, e experimentei odiar... mas não agora. sou grato, porque não a conheço, ou você a mim. não posso julgar. poderia falar, ouvir... mas não agora. não mais.

Thursday, August 17, 2006

do pó ao pó

inspirado em texto sem título, pé ou cabeça, de lúcia marra.
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euvidério trocou a lâmpada do quarto-sala – luz! os olhos cerrados, habituados à ignorância, despertam, tímidos – luz! euvidério agora não pode esconder o seu mundinho: uma vida apertada, em uma própria incômoda essência, acomoda um comportamento ordinário.

atribuições? Esperar, só – o trabalho de tantos outros partidários. esperando, desperdiça energia no elaborar teorias sem substância e intrigas infantis... os dias passam... euvidério ignora...

esperar... todo o resto é rotina: despertar, resistir, armar... se... olhar, assear, aceitar... se, apenas... alimentar... uma folha mastigada displicentemente pronuncia: homem morre envenenado. lembrou um primo distante, silvio motta.

com terno engomado e cabelo penteado, apresentou-se no horário acordado... e com estranha satisfação assistia a toda retórica e formalidade, o ritual: coisa bonita os meandros da igreja, refletiu.

a morte é mesmo de uma brevidade impressionante! a vida.

anos mais tarde, euvidério tornou ao cemitério – ocasião na qual todas as atenções estavam voltadas para si. seus olhos, ainda que fechados, a tudo e todos perscrutavam. estava diferente! tinha um sorriso insistente, ainda que descrente, no canto da boca. um alguém disse que era sarcasmo. mas, não! era felicidade.

Friday, August 11, 2006

apatia

menor é o fardo da apatia
que a crença na mais simplória realização...


alento
esquecido
espera; espera-se
um vão intervalo...
permanece, mas
deve-se proceder
processar ou expelir
deve-se decidir!
não aflige, mas
esperar... espera-se
um tanto mais...
seguir, é possível
um tanto mais...
seguir... a vida segue
mas tanto faz...