homem d gris

Friday, July 07, 2006

ao dr. aparecido franco

no intuito de informar da decisão de interromper, em caráter definitivo, o tratamento.
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faço o que faço, da forma que faço, movido por um estranho senso de responsabilidade que me foi ensinado, mas que não compreendo; e uma verdade moral na qual não acredito, mas temo, como a um deus incógnito que vigia os meus passos, registrando eidética e arbitrariamente os falsos e distraídos.

não quero morrer, mas a idéia de suicídio sempre esteve presente, isso não posso negar. nos últimos anos tenho, de fato, me comportado, irrefletidamente, de maneira a materializar esse desejo contraditório: atravessando a vida movimentada com displicência; absorvendo toda e qualquer sensação sem defesa ou critério; administrando os vícios no sentido da inconsciência... suicídio, hoje, não me parece uma solução desesperada... é quase que responsável.

como o dr. sabe, faz já algum tempo que venho me submetendo à esta medicação. antes combinada com outras drogas, agora isolada e em doses menores. em dado momento – mencionei em e-mail enviado dois ou três meses atrás – abandonei o tratamento por acreditar que o remédio não combatia os sintomas, pois me sentia ainda deprimido, diminuído e inapto a conviver neste mundo, acertadamente decifrado pelo britânico charles darwin. estava enganado quanto à eficácia – ou não eficácia – das pílulas. esta mesma carta atesta o quanto! entretanto, apesar de amenizar a dor, disfarçar o medo e muito sensivelmente regular minha inconveniente personalidade, permite que muitos – a maior parte – dos sentimentos sombrios que me acompanhavam antes do início do tratamento continuem a me perseguir.

não acostumado, mas, recentemente, definitivamente subjugado por esta condição, me empenho unicamente em compreender o mal. não luto contra o mal, não mais.

o que quero? desejo desejar. acredito, neste momento, que a minha fantasia, presente no consciente apenas e temporariamente de modo ilusório, como um vulto que acredito ver, ter visto, é também um miraculoso bálsamo. o meu sonho seria veneno e antídoto. sim! porque não desejo, temo. o prazer de vencer... a vitória é circunspecta, não sorri abertamente. não obstante, quando cede, não desperta em mim sentimento qualquer. o prazer sexual... diversas, proibidas e imundas tentativas... esse não me apraz. ao prazer orgulhoso da filantropia sou indiferente... então morro por algo diferente... e não desperto para um dia novo, não; desperto mais velho para o mesmo dia, o mesmo dia de sempre...

mas não tenho a intenção de comprometê-lo, dr. sigo com o combinado: saio, espero e, aos vinte e sete, morro de causas naturais.

3 Comments:

  • Este foi o melhor...
    Ah, e não precisa enfatizar q nao me conhece...
    Conhece melhor que muitos que me vêem todos os dias e só julgam superficialidades.
    Vc conhece o que vai no meu pensamento, idéias, sonhos, loucuras, viagens...
    O melhor, e conhece sim...
    Bjo

    By Anonymous Patt, at 6:15 PM  

  • Adorei! Só falta publicar...

    By Anonymous Thais, at 9:04 PM  

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    By Anonymous Anonymous, at 10:05 PM  

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