homem d gris

Tuesday, July 18, 2006

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síntese, creio, do que está sendo feito... advertência, espero, contra iniciativas do tipo.
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não posso fechar os olhos
desejo único, resto
incerto, tenho medo do que quero
perceber em nosso tempo
o tempo pouco que me resta
e me pergunto, moribundo
se te adoeço
como você me adoece

não tarda passar, espero
como o sorriso bobo
no rosto estampado
a sensação de desejar
e ser indesejável
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Monday, July 10, 2006

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um nó, suporte...
revela o que há
além da ausência...
um sangue ralo
diluído em noites
e outros tempos...
outra convicção
outrora, distante...
ansiedade, euforia... morte
indispensável, agora...
nisso não nota, você
ser cogente; imperativo
eu só, nada além
é suficiente...
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Friday, July 07, 2006

brincadeira existencial

tudo o que há
é
e existe
e coexiste
com o que há
sendo
tudo

poemeto d um outro tempo

às putas

sexo sem amor
sem compromisso
cumplicidade
sexo seguro
puro
desejo
o melhor sexo
sexo profissional
banal
humano
com ou sem decepção
amor
às putas

mcmatador

sílvio motta era um rapaz ordinário, se não gordo; um ser humano deprimido, se não deprimente. filho único de pais separados, sílvio motta vivia com a mãe em um pequeno apartamento no centro da cidade, sufocado entre outros tantos pequenos apartamentos.

a vida não era fácil para sílvio motta, que padecia de não conhecer problema: não trabalhava ou amava, e as demais relações, volúveis, não o preocupavam. a família o percebia estranho; os homens não o tinham como digno de confiança; as mulheres, quando não o ignoravam, divertiam-se com a sua insegurança. no geral, as pessoas não o levavam a sério. não acreditavam que ele pudesse ser, como posso dizer, infeliz: sílvio motta, como qualquer fracassado, devia ter lá a sua cota de felicidade, diziam. devia gozar ao terminar o joginho no modo mais difícil... ou quando o jornaleiro lhe entregava a edição mensal de seu quadrinho favorito.

é, sílvio motta era um de nós, com suas derrotas e conquistas, seus altos e baixos. apesar de parecer um rapaz infeliz, sem aspirações, desejo, perspectiva... sílvio motta era um de nós.

certo dia, ordinário, deprimente, estava sílvio motta comendo, sentado à varanda de um fast food próximo, quando foi gentilmente abordado por um pedinte, que sugeriu que sílvio motta lhe completasse um sanduíche. sílvio o olhou com indignação: como pode! um homem saudável incomodar as pessoas dessa maneira. o dinheiro que pede na certa é para comprar cachaça, presumiu. o mendigo interpretou o olhar, e o silêncio, como não. agradeceu e saiu. não! voltou. voltou e dissimuladamente espirrou sobre a refeição de sílvio motta. esse fitou novamente o pedinte, e seu semblante foi da indignação, passando pela consternação, até relaxar em um sorriso agradecido. sílvio motta tinha agora uma missão. já não era o rapaz apático, sem vida de outrora.

no dia seguinte sílvio motta voltou à lanchonete, a mesma do dia anterior. e o mesmo pedinte tinha acampamento armado em frente ao estabelecimento. sílvio olhou, mas não encarou. entrou e pediu uma oferta – sanduíche, batata e refrigerante. procurou por uma mesa tranqüila, sentou-se. esparramou na bandeja as batatas, pingou sobre elas dois pacotinhos de ketchup, comeu, intercalando entre um punhado e outro um trago generoso de coca. depois, com estranho cuidado, retirou o sanduíche da embalagem, como se fosse ele, sílvio motta, um funcionário que esqueceu um ingrediente importante e precisa remontar o sanduíche. na seqüência sacou do bolso um vidrinho minúsculo, desses que moças bonitas nos entregam em lojas de departamento com amostra de perfume, tirou a fatia de pão que coroava o sanduíche e salpicou generosamente o veneno.

o fluoracetato de sódio costumava ser um veneno popular no controle de ratos e outras pestes, isso antes de ter o uso restrito pelas autoridades. uma pequena dose, que pode ser facilmente acomodada na ponta do dedo indicador, é suficiente para matar um homem adulto. sílvio motta conhecia outras substâncias igualmente eficientes: ácido arsênico, cianureto, estricnina... conhecimento que adquirira durante as longas jornadas em frente ao computador, quando mergulhava na rede a evitar os demais predadores.

continuando, agora: sílvio salpicou generosa porção de fluoracetato de sódio, completando o recheio do sanduíche. então cobriu-o, devolveu-o a embalagem, levantou-se e saiu. quando abordado pelo pedinte, em frente a lanchonete, sorriu e disse: não tenho trocado, amigo. mas você pode ficar com o meu almoço. tenho mesmo que perder uns quilos!

aquele dia, em sua missão, sílvio motta e seu vidrinho de perfume estiveram em muitas lanchonetes, distribuindo sorrisos e sanduíches.

à noite, de volta ao seu pequeno apartamento, sílvio motta foi surpreendido por uma festa em razão de seu vigésimo sétimo aniversário. família, amigos, penetras... comida, bebida... um belo cenário. mas sílvio motta estava já saturado – muita batata. foi para o seu quarto. a festa continuou sem ele.

sílvio motta sentia-se frustrado em relação a sua vida, mas tinha agora uma causa para distraí-lo. no dia seguinte voltou a sua lanchonete predileta... qual não foi a sua surpresa quando viu o pedinte nas mesma condição de antes, saudável... foi quando começou a tossir, o pedinte, uma tosse forte, escandalosa, e os traços do rosto de sílvio motta esboçaram uma feição alegre. mas a tosse cessou, o pedinte ajeitou-se e, na direção de sílvio motta, lançou: vai abrir mão do almoço hoje, amigo?

sílvio motta não gostou da piada.

tinha ainda o pequeno frasco carregado, pronto. decidido a tirar a prova, pediu uma outra oferta, o especial do dia. mas a segurança que lia no sorriso gaiato do pedinte, do caixa, da garotinha que tinha nariz e lábios lambuzados com maionese lhe tirara a confiança: estaria sílvio motta no caminho certo? procurou não pensar. sentia-se vivo. estava vivo. a insegurança imputada ao longo dos anos havia já lhe privado de muito, de tudo. não ia ceder, não desta vez. mas os olhares delatores, a sabedoria dos pares o incomodava, agora, como nunca. queria matar a todos. excluí-los de sua vida. sem pensar, comeu. morreu.

ao dr. aparecido franco

no intuito de informar da decisão de interromper, em caráter definitivo, o tratamento.
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faço o que faço, da forma que faço, movido por um estranho senso de responsabilidade que me foi ensinado, mas que não compreendo; e uma verdade moral na qual não acredito, mas temo, como a um deus incógnito que vigia os meus passos, registrando eidética e arbitrariamente os falsos e distraídos.

não quero morrer, mas a idéia de suicídio sempre esteve presente, isso não posso negar. nos últimos anos tenho, de fato, me comportado, irrefletidamente, de maneira a materializar esse desejo contraditório: atravessando a vida movimentada com displicência; absorvendo toda e qualquer sensação sem defesa ou critério; administrando os vícios no sentido da inconsciência... suicídio, hoje, não me parece uma solução desesperada... é quase que responsável.

como o dr. sabe, faz já algum tempo que venho me submetendo à esta medicação. antes combinada com outras drogas, agora isolada e em doses menores. em dado momento – mencionei em e-mail enviado dois ou três meses atrás – abandonei o tratamento por acreditar que o remédio não combatia os sintomas, pois me sentia ainda deprimido, diminuído e inapto a conviver neste mundo, acertadamente decifrado pelo britânico charles darwin. estava enganado quanto à eficácia – ou não eficácia – das pílulas. esta mesma carta atesta o quanto! entretanto, apesar de amenizar a dor, disfarçar o medo e muito sensivelmente regular minha inconveniente personalidade, permite que muitos – a maior parte – dos sentimentos sombrios que me acompanhavam antes do início do tratamento continuem a me perseguir.

não acostumado, mas, recentemente, definitivamente subjugado por esta condição, me empenho unicamente em compreender o mal. não luto contra o mal, não mais.

o que quero? desejo desejar. acredito, neste momento, que a minha fantasia, presente no consciente apenas e temporariamente de modo ilusório, como um vulto que acredito ver, ter visto, é também um miraculoso bálsamo. o meu sonho seria veneno e antídoto. sim! porque não desejo, temo. o prazer de vencer... a vitória é circunspecta, não sorri abertamente. não obstante, quando cede, não desperta em mim sentimento qualquer. o prazer sexual... diversas, proibidas e imundas tentativas... esse não me apraz. ao prazer orgulhoso da filantropia sou indiferente... então morro por algo diferente... e não desperto para um dia novo, não; desperto mais velho para o mesmo dia, o mesmo dia de sempre...

mas não tenho a intenção de comprometê-lo, dr. sigo com o combinado: saio, espero e, aos vinte e sete, morro de causas naturais.

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deixado, ontem, ocorreu
inevitável o passado:
você decidiu, portanto
sentimento findo tratado
como que nunca sentido...
sorriso e lágrimas atestam:
sem cruz ou sinal, enterrado,
qualquer que indique certeza...
esquecido, o corpo, três anos
antes que retirem os ossos...
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Wednesday, July 05, 2006

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o rosto úmido atua humilhado
baixo, clama ainda atenção
dentes cerrados ruminam o rancor
que alimenta satisfatoriamente
o desgraçado que ama
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meia-vida

“as pessoas que nada têm a dizer
são muito cuidadosas
na maneira de dizê-lo.”
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sempre quis ser comediante,
não anima dizer que contei uma só piada...
já não me lembro como era, a graça!
foi há muito, muito tempo.

além, sonhei com coisinhas triviais:
amar uma mulher comum, safada,
ainda que de todo leviana,
qualidade qualquer que a torne palpável...

locupletar sem mais-valia.
obter mérito, paz... dignidade não,
o supérfluo permanece supérfluo;
já o restante, dois de cada teria.

experimentar contactos imediatos,
ser abduzido, ter o cérebro estudado...
quis parecer que vi fantasma...
e assim ter histórias pra contar.

enlouquecer com o tédio do dia a dia,
banalizar a loucura de fim de festa...
esquecer...
nascer e morrer... sempre que necessário...

Monday, July 03, 2006

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o tempo passa, frouxo
amigo cruel...
e a memória cede espaço
a casos sem importância
ignoro.
a vida é outra sem você
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Saturday, July 01, 2006

você e eu

foi divertido ver você sorrir
dormir tranqüilo com você no colo
trocamos prosa, tapa, verso
dividimos uma cama pequena
apertada para tantos eus

foi quando, de súbito
a vida percebemos, restrita
com tantas possibilidades
e fadados, ambos, ao desencontro
trocamos prosa, verso

o amanhã, por fim, promete
mesmo a mais intensa lembrança
sem vestígio qualquer desfazer
num destino marcado, distante
trocamos verso, ainda


gostaria de oferecer essas linhas, ébrias, legítimas, porém, a você, ana, que não as ouviu, não conhece a voz... e sente.